Por mais de um século, desde que ele gravou as palavras "Mary tinha
um cordeirinho" numa folha de alumínio, Thomas Edison tem sido
considerado o pai do som gravado. Mas pesquisadores afirmam que
descobriram uma gravação da voz humana, feita por um francês pouco
conhecido, que precede em quase duas décadas a invenção do fonógrafo
por Edison.
A gravação de 10 segundos de uma
cantora entoando "Au Clair de la Lune" foi descoberta no início deste
mês num arquivo em Paris por um grupo de historiadores de
áudio americanos.
Leia também: Apresentadora tem ataque de risos ao ler notícia
Ela
foi feita, segundo os pesquisadores, em 9 de abril de 1860, num
fonoautógrafo, uma máquina criada para registrar sons visualmente, não
para tocá-los. Mas as gravações do fonoautógrafo, ou fonoautogramas,
foram tornadas "tocáveis", convertidas de rabiscos no papel para som –
por cientistas do laboratório Nacional Lawrence Berkeley, em Berkeley,
Califórnia.
"Esta é uma descoberta histórica, a
mais antiga gravação de som conhecida",afirmou Samuel Brylawski, o ex
chefe da divisão de som gravado da biblioteca do Congresso
norte-americano, que não está ligado ao grupo de pesquisa mas que está
familiarizado com as descobertas. A escavação de áudio poderia dar uma
nova primazia aos fonoautógramo, antes considerado mera curiosidade, e
a seu inventor, Edouard-Leon Scott de Martinville, um impressor e
mecânico amador que morreu convicto de que sua inovação havia sido
impropriamente atribuída a Edison.
Voz no papel
O
aparelho de Scott tinha uma estrutura em forma de barril ligada a uma
agulha, que extraía as ondas de som das folhas de papel escurecidas com
fumaça de uma lâmpada a óleo. As gravações não tinham o propósito de
serem ouvidas, já que o conceito de playback de áudio ainda não
existia. Em vez disso, Scott buscava criar um registro em papel da fala
humana que pudesse ser decifrado mais tarde.
Mas os
cientistas de Lawrence Berkeley utilizaram imagens ópticas e uma
"agulha virtual" em scans de alta resolução do fonoautógramo,
empregando tecnologia moderna para extrair padrões inscritos no papel
preto há quase um século e meio. Os cientistas pertencem a um grupo de
colaboração informal chamado Primeiros Sons que também
inclui historiadores de áudio e engenheiros de som.
David Giovannoni, um historiador de áudio norte-americano que liderou
os esforços de pesquisa irá apresentar as descobertas e tocar as
gravações em público na sexta-feira (28) na conferência anual das
Coleções da Associação do Som Gravado na Universidade de Stanford, em
Palo Alto, Califórnia. O fonoautógramo de Scott de 1860 foi feito 17
anos antes de Edison ter recebido uma patente pelo fonógrafo e 28 anos
antes de Edison associar um trecho de um oratório de Handel a um
cilindro de cera, uma gravação que até agora era considerada pela
maioria dos especialistas como a mais antiga que ainda podia ser
tocada.
A apresentação de Giovannoni na sexta exibirá descobertas adicionais de
fonoautogramas de Scott encontradas em Paris, incluindo gravações
feitas em 1853 e 1854. Aqueles primeiros experimentos incluem
tentativas de capturar o som da voz humana e uma guitarra, mas a
máquina de Scott estava calibrada de forma imperfeita na época.
"Nós
conseguimos fazer com que os primeiros fonoautogramas grasnassem e só",
afirmou Giovannoni. Mas o fonoautógramo de abril de 1860 é mais do que
isso. Numa cópia digital da gravação fornecida ao The New York Times,
uma vocalista anônima, presumivelmente mulher, pode ser ouvida com
ruídos e chiados ao fundo. A voz, abafada porém audível, canta "'Au
clair de la lune, Pierrot repondit', uma sinuosa melodia de 11 notas –
uma canção fantasmagórica que parece emergir do lodo sonoro.
Em busca do Santo Graal
A
caçada pelo Santo Graal do áudio foi iniciada no outono por Giovannoni
e três associados: Patrick Feaster, um especialista em história do
fonógrafo que dá aula na Universidade de Indiana e Richard Martin e
Meagan Hennessy, proprietários da Archeophone Records, um selo
especializado nas primeiras gravações da história. Eles já haviam
colaborado antes no disco da Archeophone "Actionable Offenses", uma
coletânea de gravações obscenas do século XIX que recebeu duas
indicações ao Grammy. Quando Giovannoni levantou a hipótese de compilar
uma antologia dos sons mais antigos já gravados, Feater sugeriu a busca
dos fonoautogramas de Scott. Historiadores há muito tempo sabem da
existência do trabalho de Scott, mas pesquisadores americanos acreditam
que eles são os primeiros a fazer uma busca concentrada pelos
fonoautogramas de Scott e os primeiros a tentar ouvi-los.
Em dezembro, Giovannoni e um pesquisador assistente viajaram até um
escritório de patentes em Paris, o Institut National de la Propriete
Industrielle. Lá eles encontraram gravações de 1857 a 1859 que foram
incluídas por Scott na requisição de patente de seu fonoautógrafo.
Giovannoni afirmou que trabalhou com a equipe do arquivo de lá para
conseguir scans dessas gravações alta resolução digital e com qualidade
de preservação.
Uma trilha de pistas, incluindo uma referência enigmática sobre
gravações de Scott em depósitos de fonoautógramo na "Academia" levou os
pesquisadores a outra instituição em Paris, a Academia Francesa de
Ciências, onde muitas outras gravações de Scott foram guardadas.
Giovanni afirmou que seu momento de "eureca" ocorreu quando ele viu um
fonoautógramo de 1860, uma folha de pano meticulosamente preservada
medindo 9 por 25 polegadas. "Ela estava intacta", afirmou Giovannoni.
"As ondas sonoras estavam impecavelmente limpas e nítidas".
Seus scans foram enviados ao laboratório de Lawrence Berkeley, onde
foram convertidos em sons pelos cientistas Carl Haber e Earl Cornell.
Eles utilizaram uma tecnologia desenvolvida há muitos anos em
colaboração com a biblioteca do Congresso, na qual "mapas" de alta
resolução de gravações feitas com sulcos são tocadas num computador
usando uma agulha digital. O fonoautógramo de 1860 de 1860 foi separado
em 16 canais – um para cada onda de som – que Giovannoni, Feaster e
Martin meticulosamente colaram de volta, fazendo ajustes para variações
de velocidade das gravações produzidas à mão por Scott.
Pré-história do som
Os
ouvintes agora devem ponderar se a esquisitice de ouvir uma gravação
feita antes do conceito de reprodução de áudio ter sido sequer
imaginado. "Há uma enorme lacuna epistemológica entre nós e Leon Scott,
porque ele achou que a maneira de se chegar à essência do som é olhando
para ele", afirmou Jonathan Sterne, professor da Universidade McGill,
em Montreal, e autor de "O Passado Audível: origens Culturas da
Reprodução de Som".
Scott é, de muitas maneiras, um
herói pouco provável do som gravado. Nascido em Paris em 1817, ele era
um homem de letras, não um cientista, que trabalhava com impressão e
como bibliotecário. Ele publicou um livro sobre a história da
taquigrafia e evidentemente via a gravação de som como uma extensão da
estenografia. Nas memórias que ele mesmo publicou em 1877, ele foi
contra Edison por este ter "se apropriado" de seus métodos e
desconstruir o propósito da tecnologia de gravação. O objetivo,
argumentou Scott, não era reprodução de som, mas "escrever a fala, que
é o que a palavra fonógrafo significa".
Realmente, Edison chegou à sua conquista por conta própria. Não há
provas de que ele tenha se beneficiado do conhecimento obtido pelo
trabalho de Scott para criar o fonógrafo e ele permanece com a
distinção de ter sido o primeiro a reproduzir som. "Edison não foi
diminuído em nada pela descoberta", afirmou Giovannoni.